4/05/2017

DESPEDIDA

Enquanto o teu corpo arrefece                            
Aquece o sopro da minha poesia
Levo-te no colo de uma prece
Beijo-te a alma que me alumia
Sou filho da tua carne ausente
Que me chama para junto de ti
Vejo-te a sorrir na minha mente
Lá do alto da nossa montanha
O vento sacode a tua chama
Que teima em não se apagar
Caminhas suave e ao relento
Não te ouço ao menos gritar
Queria estar no teu lamento
Abraçado ao refluxo do teu ar
Sou filho do teu olhar que cai
Em gotas amargas me dissolvo
Não quero que me vejas chorar
Quero-te serena e consciente
Forte determinada e amorosa
Segura de ti e do teu presente
A terra transformará o teu ser
Morrer não representa tristeza
Apenas uma só e breve ausência
Sentida e apertada pelos nós
Que em breve será a certeza
De nos podermos ver a sós

mongiardimsaraiva
   

3/21/2017

MOLA FORTE

Mola forte que me carregaste                                  
E suportaste sem enferrujar
Apesar de todos esses (d)anos
Sem veres a graça do meu ar
Por onde ando sem o teu abraço
Que nem consigo mais imaginar-te
Como parte daquilo que eu faço
Ao ter-te junto ao meu pensar
Escrevo-te em versos de saudade
Porque não ouso te abraçar
Estou longe do teu corpo
Não consigo jamais ser breve
Nem fazer o coração calar
Sou parte da tua essência
E na tua seiva quero ficar
Para sempre e ao de leve
Como varão da tua barcaça
Leva-me contigo na tua viagem
Numa miragem em que viveremos
Num tempo de há muito tempo
Em que falaremos o nosso falar
A respeito de nós dois
Apenas de nós dois
Na imensidão do teu mar
Onde eu quero ficar

mongiardimsaraiva




3/10/2017

MINHA SALA DE AULA DO PRESENTE


Confesso que cheguei tarde,                                  
Na minha sala do presente.
Um sonho organizado em mente,
Que demorou e ainda arde...
Percebi que na tecnologia
Tudo era possível e atraente,
Mesmo numa sala ausente,
Onde demora em ser tarde...
Procuro nesse ambiente,
O saber que me faz gente;
Como filho do conhecimento
Que emerge de um sono distante...
Abraço essa família que não vejo
E desejo-a no calor da minha mão.
Aulas mágicas que levam e trazem;
Perguntas, dúvidas e soluções...
Afinal, a sala de aula é mesmo aqui,
Cheia de música, ruído e gargalhada.
Tudo não passa de um sonho;
Real, presente e duradouro...
Preparado para dar-me o que faltava;
Um futuro semeado pelo presente,
Lançado na plataforma do AVA.

mongiardimsaraiva




1/27/2017

FAVELA - BRASIL

Digital Art - Curioos
https://www.curioos.com/product/print/favela--brazil


a morada de muitos pobres
em cores desbotadas e cruas
um imenso viveiro sem nome
refém do tráfego e da guerra
sem tréguas e sem futuro
alienados pela incerteza nua
consomem-se nessa natureza
sorrindo e driblando a fome
escondidos atrás dos muros
e das paredes em construção
nação que não quer aprender
no hábito de não querer saber
só sobreviver para não morrer
mostrar alguma mentira feliz
como na carne da meretriz
que usa o corpo para sofrer


mongiardimsaraiva
(poema e imagem)






1/17/2017

FRAGMENTOS

Fragmentos irremediavelmente soltos
De uma vida que não ganhou asas
Acorrentada à vontade de esquecer
Mundos onde não se construíram casas
Vergonhas sem cabeças para esconder
É muito triste para um ser que vai morrer
E que buscou a verdade fora da existência
Nas alas de um labirinto escuro sem saber
Entregar tanta beleza ao abrigo da natureza
Agora já mal existem traços e contornos
Daquela mulher bela prateada e apagada
Por traços azuis e brancos da cor do nada
Algumas partículas errantes e esvoaçantes
Voaram como pássaros negros sem ter céu
Espalhando-se na sombra do seu olhar
De bela rainha deposta e sem ter lei
Fragmentada pelo desejo de ser antes
Como na lembrança de nunca ter rei

mongiardimsaraiva
  

12/15/2016

CHÃO DE TERRA

Sonhei com esse lugar bucólico
Que me levou a uma casa perdida
Reino benevolente e simbólico
No final do meu caminho de ida
Aos arbustos das árvores sombrias
Que cantam a brisa da primavera
Dos pássaros e das manhãs frias
Proclamo a minha longa espera
Extasiado me abrigo na quimera
Que me silencia as mágoas vazias
Sou agora um pedaço desse chão
Que pertenceu às flores e ao céu
Quase uma pedra na contramão
De quem não chora o triste véu
Quero ser a terra da minha terra
Um presente ausente da guerra
Que teima em ter terra na mão

mongiardimsaraiva



12/08/2016

A VERDADE E O VAZIO

"O vazio é a verdade"                                          
Que nos provoca arrepio
Para não sentirmos frio
Na tristeza e na idade
Sem a dúvida amarga
Somos libertos da carga
Dessa eterna incerteza
Entre montanhas de nobreza
Passam as águas de um rio
Que nos mostra a liberdade
E como é escassa a saudade
"A verdade é o vazio"

mongiardimsaraiva

DIPIRONA

Ó dipirona!                                          
Que ousei omitir
Em risos de escárnio,
Amargo por não refletir.
As vidas que poupaste,
Amaste e ajudaste a sorrir...
Ciente da tua imensa cura,
Humildemente peço perdão.
Sou o teu novo guardião,
Nesta vida curta e dura.
Às boas almas te enviarei,
Dipirona sedosa e branca.
Que sejas a nossa manta
E nos cubras de pó branco,
Como uma nuvem sagrada
Que alivia as nossas dores
E perpetua os teus amores.
Nesta vida de quase nada,
Sou teu criado, minha santa!

mongiardimsaraiva

11/27/2016

À LUZ DA VELA

Estou à luz de uma vela                                                  
Escuto silêncios em segredo
Sou uma estátua amargurada
Sinto vertigens no degredo
A noite envolve-me sentinela
Dos meus atos resguardados
Aguça-me a vontade de voar
Num bando alto hipnotizado
Não quero mais ver a terra
Que ruge e brada o profano
Sou alma fácil e descarnada
Por amores sem ter guerra
Agora sou o corpo e a vela
Que ardem sós e em silêncio
Nos confins da madrugada
Somos amantes sem ter nada
Que nos mantenha reféns
Da fraca luz amarelada
Sem forma e sem cheiro
Ausente no meu presente
Insisto em ser a lembrança
Que quis essa vela apagada

mongiardimsaraiva

10/19/2016

A SOLIDÃO DE UM ANJO

Um anjo tomado pela solidão                          
Aguardava sentado na escada
Que o céu se abrisse de perdão
E a aurora seduzisse a madrugada
As casas estavam vazias e claras
Numa luz amarelada sem noção
Contagiadas pelo pó da fachada
Triste vazia e apagada sem ter pão
Do alto viam-se pequenos mundos
Que rolavam sós e lentos pelo chão
Não havia mais almas para guardar
Todas estavam ausentes e carentes
Não queriam mais sentir a razão
Ruas e caminhos não se cruzavam
E as sentinelas apáticas dormitavam
Ninguém mais via o sol e a lua
Que escondiam essa verdade crua
Em dias secos e longos de arrepiar
Para que possamos voltar a amar
Livrai-nos agora dessa tristeza fria
"Anjo da Guarda nossa companhia
Guardai a nossa alma de noite e de dia"

mongiardimsaraiva









 

9/21/2016

OUSADIA POÉTICA

Poemas que ousaram ser
Palavras ditas de cor
Como adagas na carne
Que mutilaram os corpos
Obrigam as letras a viver
A nunca fugir de morrer
Anjos breves e sedutores
Que vieram para beijar
Acariciar e convidar
A ser a luz na saudade
Numa alegria efêmera
Apenas sonho e poesia
Como uma imagem baça
Que só deixa transparecer
O que é belo e não passa

mongiardimsaraiva








                                                               

8/31/2016

MAR PORTUGUÊS

Agiganta-te, ó mar!
Mostra nas tuas entranhas,
O sonho do nosso ser...
Espalha a tua espuma branca
E arranca na tua força tamanha,
Abraços e gemidos de prazer.
Ao nos deixares assim extasiados,
Perplexos e acorrentados às ondas,
Em carrosséis de águas à tona
Que nasceram no teu marejar,
Por séculos em ti navegados.
Onde o vento bateu na lona
E marinheiros puderam sonhar
Com as terras do mar distante,
Ocultas no teu semblante
E protegidas pela força do mar.
Nunca te esqueças de quem se foi
Em tempestades do teu sal,
Nas águas desse poder real...
Em ti, depositaram a esperança
De um dia nascerem crianças.
Orgulho de ser Portugal!

8/26/2016

CEGOS

Cego pelo brilho                                                
E pela luz insana
Deixei de ver-te ó filho
À luz do ódio que emana
Das vísceras ensanguentadas
E esquartejadas por impiedosos
Em bárbaras execuções sumárias
Que brutalidade a sós respiramos
Nos nós apertados desses párias
Aguardo avidamente pela noite
Onde possa consagrar-me cego
Cego do dia que me mata cedo
E que me dá olhos na escuridão
De noite vejo-te no auge do breu
Como um ser deposto e glorioso
Um brando cego e só como eu
Abrigado na luz de uma sombra
Que nos protege das claridades
E dos gritos agudos sem paz
Cegos pelo olhar sem piedade
Fechamos os olhos ao mundo
Ofertamos a vida às quimeras
E ocultamos o que na terra jaz

mongiardimsaraiva

8/03/2016

FAÇA SEMPRE CERIMÔNIA!

Faça sempre cerimônia!
Diria a minha saudosa mãe,
Além d'outros conselhos além.
Nunca deixe o peito aberto
Ao mortal que se acha esperto.
Faça sempre cerimônia!
Não provoque nunca o abuso,
Obtuso de quem não tem.
Aja sempre com destreza,
Certeza de sair-se bem.
E cuide da sua nobreza.
Faça sempre cerimônia!
Porque aqueles que hoje são,
Amanhã podem já não ser
E você, não terá razão.
Noção é ter um saber,
Para evitar a contramão.
Faça sempre cerimônia!

 mongiardimsaraiva

7/27/2016

ISCARIOTE

Ó falso iscariote,
Como pudeste negar-me
Duas vezes o teu auxílio,
Quando aflito te procurei?
Alguma vez me imaginaste,
Carente e além da tua lei?
Como não quiseste o que te dei,
Desapegado ao meu interesse
E às riquezas que criei?
Não passas de um eterno vazio,
Apenas seguro ao que é teu.
Ateu do amor e da amizade;
Vontade de te esquecer, eu,
Que não vivo só da saudade.


 mongiardimsaraiva