7/04/2017

METAPOEMA

Nasço numa gota de água                                        
E arrasto-me por entre as pedras,
Fraca e evaporada pelas mágoas.
Agrego o pó que me dita as regras;
Que quer que eu morra sem ter vida.
Não quero ser seca como a terra!
Procuro avidamente por mais água.
Quanto mais leve e pura eu for,
Mais perto estarei do meu amor.
E sem dor, passarei mais adiante
Pela melodia da fraca correnteza.
Silenciosamente só e distante,
Descerei escarpas, vales e colinas
Para compor em paz o meu tema.
Estarei nas asas do meu anjo;
Serei a força deste poema!

mongiardimsaraiva
(poema & imagem)
 

6/23/2017

O SABER

Antigamente, sabíamos para saber!                                  
Para poder ler, escrever e saber dizer.
Se não soubéssemos, não nos deixavam ser;
Estudantes que não queriam aprender.
Repetíamos para poder crescer,
Para um dia, podermos vir a ser.
Hoje, ninguém mais sabe do saber...
Tudo gira em volta do poder,
Dos números forjados a esconder.
De interesses que ocultam o nosso ser.
Pequenas rodas de conveniência em ter.
Pobres crianças iludidas pelo lazer!
Professores que fingem esquecer
Que um dia já ensinaram o saber...
E o que podemos então fazer,
Arrastados e nus sem querer,
Se nunca iremos saber?

mongiardimsaraiva
(poema & imagem)




6/08/2017

PANGEIA

gosto do teu cheiro                                                                  
ouso entrar no teu segredo
sou aquela sombra que chega primeiro
para deixar-te na penumbra desse enredo
trago-te sempre o calor dos meus beijos                      
molhados pelo frescor das águas que passam
quando te abraço sinto a dor no meu peito
um leito que me amarra à correnteza
natureza da nossa certeza acesa
gemidos e sussurros que nos escapam
somos assim um para o outro
pangeias que agregam e desagregam
mundos que nos apertam e escapam
pedaços de corpos que se pertencem
fomos lançados num abraço a sós
na vida intensa e cheia de mistério
quem nos entregou sabia de nós
dos segredos do mar alto e fundo
viajei um dia na cauda de uma sereia
que me transportou no som da tua voz
mal sabia que o destino era a pangeia
algoz do nosso amor doce e profundo

mongiardimsaraiva
(poema & imagem)

























6/02/2017

CAÓTICA

assisto perplexo ao confinar do caos                      
sou parte desse lixo que me polui
sou uma frágil membrana que resiste
e insiste em ser apenas o que não fui
lastimo a presença de muitos deuses
numa jangada feita de madeira podre
que balança nas ondas sem corrente
sou a descolorida poesia que mente
em espasmos contidos e sem cor
insisto em me tornar como um odre
inchado e amparado pela flutuação
apenas observo os escolhos do rio
mudo no afeto e surdo pelo canhão
sou puro sarcasmo no meu vazio
a foz desse rio foi feita para mim
santuário dos dejetos que eu lanço
no abraço do mar quero me tornar
uma coisa solta leve e não caótica
apenas amparado por marés vivas
nos percalços da lua do meu par

mongiardimsaraiva
(poema & imagem)

   
 

5/10/2017

SEPULTAMENTO

O ar está quente e rarefeito                                                    
Não ouço mais o teu canto
Escureceu dentro do meu leito
Sinto náuseas sem ter pranto
As larvas preparam-se para viver
No meu corpo frio pálido e direito
Querem mutilar-me por dentro
Achar carne dentro do meu peito
A sepultura é a minha última morada
Talhada em pedra sobre o meu feito
Ossos duros seguram-me ao corpo da terra
Imagens imundas lembram-me a guerra
O melhor será morrer já para esquecer
Adormecer sem tarde para não sofrer
Aproveitar essa casa como um abrigo
E dar graças por não ter aqui um amigo
Oferecer-me à importância dessa cova
Que me concede o direito de não ser
Como um parasita inconsciente e mudo
Que não precisa mais de usar as manhas
Despeço-me do mundo sem clemência
Para habitar finalmente nas entranhas
Não quero ser mais cruz nem penitência
Somente preambular sem o meu escudo
Apenas ausência e amor por tudo

mongiardimsaraiva







5/09/2017

HORIZONTE PERDIDO

Perdoai-me a franqueza                                    
A dureza de não ser brando
O que vejo ofende a natureza
Em golpes de fogo queimando
Nesse país à beira do óbito
Sem soldados e sem comando
Quase perdido e perambulando
Sigo uma jornada sem céu
Réu também nessa tristeza
Que apodrece rostos sem véu
Queria não ter de olhar-vos
Passar por vós na doce brisa
Ausentar-me dessa maldade
Correr para a vida interrompida
Sei que estou na contramão
De uma criação desmerecida
Lanço-me na imensidão do poço
Num vazio sem contestação
Sou um pedaço de incerteza
Que busca abrigo em outra mão

mongiardimsaraiva
(poema & imagem)

4/05/2017

DESPEDIDA

Enquanto o teu corpo arrefece                            
Aquece o sopro da minha poesia
Levo-te no colo de uma prece
Beijo-te a alma que me alumia
Sou filho da tua carne ausente
Que me chama para junto de ti
Vejo-te a sorrir na minha mente
Lá do alto da nossa montanha
O vento sacode a tua chama
Que teima em não se apagar
Caminhas suave e ao relento
Não te ouço ao menos gritar
Queria estar no teu lamento
Abraçado ao refluxo do teu ar
Sou filho do teu olhar que cai
Em gotas amargas me dissolvo
Não quero que me vejas chorar
Quero-te serena e consciente
Forte determinada e amorosa
Segura de ti e do teu presente
A terra transformará o teu ser
Morrer não representa tristeza
Apenas uma só e breve ausência
Sentida e apertada pelos nós
Que em breve será a certeza
De nos podermos ver a sós

mongiardimsaraiva
   

3/21/2017

MOLA FORTE

Mola forte que me carregaste                                  
E suportaste sem enferrujar
Apesar de todos esses (d)anos
Sem veres a graça do meu ar
Por onde ando sem o teu abraço
Que nem consigo mais imaginar-te
Como parte daquilo que eu faço
Ao ter-te junto ao meu pensar
Escrevo-te em versos de saudade
Porque não ouso te abraçar
Estou longe do teu corpo
Não consigo jamais ser breve
Nem fazer o coração calar
Sou parte da tua essência
E na tua seiva quero ficar
Para sempre e ao de leve
Como varão da tua barcaça
Leva-me contigo na tua viagem
Numa miragem em que viveremos
Num tempo de há muito tempo
Em que falaremos o nosso falar
A respeito de nós dois
Apenas de nós dois
Na imensidão do teu mar
Onde eu quero ficar

mongiardimsaraiva




3/10/2017

MINHA SALA DE AULA DO PRESENTE


Confesso que cheguei tarde,                                  
Na minha sala do presente.
Um sonho organizado em mente,
Que demorou e ainda arde...
Percebi que na tecnologia
Tudo era possível e atraente,
Mesmo numa sala ausente,
Onde demora em ser tarde...
Procuro nesse ambiente,
O saber que me faz gente;
Como filho do conhecimento
Que emerge de um sono distante...
Abraço essa família que não vejo
E desejo-a no calor da minha mão.
Aulas mágicas que levam e trazem;
Perguntas, dúvidas e soluções...
Afinal, a sala de aula é mesmo aqui,
Cheia de música, ruído e gargalhada.
Tudo não passa de um sonho;
Real, presente e duradouro...
Preparado para dar-me o que faltava;
Um futuro semeado pelo presente,
Lançado na plataforma do AVA.

mongiardimsaraiva




1/27/2017

FAVELA - BRASIL

Digital Art - Curioos
https://www.curioos.com/product/print/favela--brazil


a morada de muitos pobres
em cores desbotadas e cruas
um imenso viveiro sem nome
refém do tráfego e da guerra
sem tréguas e sem futuro
alienados pela incerteza nua
consomem-se nessa natureza
sorrindo e driblando a fome
escondidos atrás dos muros
e das paredes em construção
nação que não quer aprender
no hábito de não querer saber
só sobreviver para não morrer
mostrar alguma mentira feliz
como na carne da meretriz
que usa o corpo para sofrer


mongiardimsaraiva
(poema e imagem)






1/17/2017

FRAGMENTOS

Fragmentos irremediavelmente soltos
De uma vida que não ganhou asas
Acorrentada à vontade de esquecer
Mundos onde não se construíram casas
Vergonhas sem cabeças para esconder
É muito triste para um ser que vai morrer
E que buscou a verdade fora da existência
Nas alas de um labirinto escuro sem saber
Entregar tanta beleza ao abrigo da natureza
Agora já mal existem traços e contornos
Daquela mulher bela prateada e apagada
Por traços azuis e brancos da cor do nada
Algumas partículas errantes e esvoaçantes
Voaram como pássaros negros sem ter céu
Espalhando-se na sombra do seu olhar
De bela rainha deposta e sem ter lei
Fragmentada pelo desejo de ser antes
Como na lembrança de nunca ter rei

mongiardimsaraiva
  

12/15/2016

CHÃO DE TERRA

Sonhei com esse lugar bucólico
Que me levou a uma casa perdida
Reino benevolente e simbólico
No final do meu caminho de ida
Aos arbustos das árvores sombrias
Que cantam a brisa da primavera
Dos pássaros e das manhãs frias
Proclamo a minha longa espera
Extasiado me abrigo na quimera
Que me silencia as mágoas vazias
Sou agora um pedaço desse chão
Que pertenceu às flores e ao céu
Quase uma pedra na contramão
De quem não chora o triste véu
Quero ser a terra da minha terra
Um presente ausente da guerra
Que teima em ter terra na mão

mongiardimsaraiva



12/08/2016

A VERDADE E O VAZIO

"O vazio é a verdade"                                          
Que nos provoca arrepio
Para não sentirmos frio
Na tristeza e na idade
Sem a dúvida amarga
Somos libertos da carga
Dessa eterna incerteza
Entre montanhas de nobreza
Passam as águas de um rio
Que nos mostra a liberdade
E como é escassa a saudade
"A verdade é o vazio"

mongiardimsaraiva

DIPIRONA

Ó dipirona!                                          
Que ousei omitir
Em risos de escárnio,
Amargo por não refletir.
As vidas que poupaste,
Amaste e ajudaste a sorrir...
Ciente da tua imensa cura,
Humildemente peço perdão.
Sou o teu novo guardião,
Nesta vida curta e dura.
Às boas almas te enviarei,
Dipirona sedosa e branca.
Que sejas a nossa manta
E nos cubras de pó branco,
Como uma nuvem sagrada
Que alivia as nossas dores
E perpetua os teus amores.
Nesta vida de quase nada,
Sou teu criado, minha santa!

mongiardimsaraiva

11/27/2016

À LUZ DA VELA

Estou à luz de uma vela                                                  
Escuto silêncios em segredo
Sou uma estátua amargurada
Sinto vertigens no degredo
A noite envolve-me sentinela
Dos meus atos resguardados
Aguça-me a vontade de voar
Num bando alto hipnotizado
Não quero mais ver a terra
Que ruge e brada o profano
Sou alma fácil e descarnada
Por amores sem ter guerra
Agora sou o corpo e a vela
Que ardem sós e em silêncio
Nos confins da madrugada
Somos amantes sem ter nada
Que nos mantenha reféns
Da fraca luz amarelada
Sem forma e sem cheiro
Ausente no meu presente
Insisto em ser a lembrança
Que quis essa vela apagada

mongiardimsaraiva